Arquivo do mês: fevereiro 2006

Ver-o-Peso

Ver-o-Peso! Meu porto balança,
pesando esperança, no peso enganando
o povo sofrido, de dores curtido,
de mágoa vencido, mas sempre comprando.

Ver-o-Peso! Dá mágoa no rosto,
do eterno desgosto de um povo explorado,
que paga gemendo, com fome sofrendo,
embora sabendo no peso roubado.

Ver-o-Peso! Mercado da vida,
da luta renhida pelo ganha-pão,
que vende alimento, que pesa tormento,
vende sofrimento, sorriso, ilusão.

Ver-o-Peso! Da ave cativa
mais morta que viva, sem voz para cantar,
as asas batendo, as penas perdendo,
aos poucos morrendo e querendo voar.

Ver-o-Peso! Mercado do povo
que volta de novo, ao romper do dia,
vendendo, comprando, perdendo, ganhando,
também enganando as pobres Marias.

Ver-o-Peso! Dos barcos chegando,
no cais atracando repletos de carga,
dinheiro faltando, ganância explorando,
na água jogando, a fruta que estraga.

Ver-o-Peso! Do homem de cor
que um dia, por amor, matou sem pensar,
que dorme jogado, no chão estirado
e embriagado com fome e sem lar.

Ver-o-Peso! Da boca devassa
do homem que passa e diz palavrão,
de guardas correndo, ferozes prendendo,
nem sempre sabendo quem foi o ladrão.

Ver-o-Peso! Da vela arriada,
barcaça parada, esperando a enchente,
do amor passageiro, do amor canoeiro,
do amor marinheiro que beija e não sente.

Sylvia Helena Tocantins
Escritora e membro da Academia Paraense de Letras

A poesia “Ver-o-Peso” recebeu a Medalha Cultural no V Encontro de Poetas da Secretaria Municipal de Educação de Belém no ano de 1983.

Anúncios

Belém dos meus encantos

Lá vem Belém,
moreninha brasileira,
com perfume de mangueira,
vestidinha de folhagem.
E vem que vem,
ligeirinha, bem faceira,
como chuva passageira
refrescando a paisagem.

Lá vem Belém,
com suas lendas, seus encantos,
seus feitiços, seus quebrantos,
seus casos de assombração.
E vem que vem,
com seu cheirinho de mato,
com botos, cobra Norato,
com rezas, defumação.

Lá vem Belém,
recendente, feiticeira,
no seu traje de roceira,
na noite de São João.
E vem que vem,
com seus banhos de panela,
alecrim, jasmim, canela,
hortelã, manjericão.

Lá vem Belém,
a Belém dos meus encantos,
dos terreiros, Mães de Santo,
das crendices, do pajé.
E vem que vem,
com sobrados de azulejo,
vigilengas, Ver-o-Peso,
na enchente da maré.

Lá vem Belém.
No dia da Trasladação
vela acesa, pé no chão,
sempre firme em sua fé.
E vem que vem,
o povo implorando graça,
sempre que a Berlinda passa
com a Virgem de Nazaré.

Lá vem Belém,
junto de Nossa Senhora,
dia do Círio ela implora
saúde, paz e dinheiro.
E vem que vem
o povão, o povo inteiro
porque Deus é brasileiro
e Jesus nasceu em Belém.

Sylvia Helena Tocantins
Escritora e membro da Academia Paraense de Letras

A poesia “Belém dos meus Encantos” foi musicada pelo compositor paraense Edyr Proença. Recebeu a Medalha “E. D’Almeida Vitor” no VI Concurso Nacional de Poesia realizado em Brasília em 1985.

Vida Noves Fora Zero

“Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
(…)
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero”.

(Manuel Bandeira)

Só. Ela acorda às 7 horas e 10 minutos no quarto de 18 metros. Na cama, 2 lençóis, 3 travesseiros, 3 almofadas, 2 bichinhos de pelúcia.

Pensa no sonho e suas 3 estranhas personagens – Freud explicaria? Mas, pra divagar, não há mais tempo do que 10 minutos. Precisa estar no escritório antes das 9.

Joga os 2 pés nos chinelos. Pelo menos, não amanhece com os chinelos trocados.

Roda 3 vezes o botão do ar. Agora tudo off.

Livra-se de outros 6 botões e deixa vazias as botoeiras. Curte ducha quente e forte, de 220 volts, com 64 furos de jato.

Controla seu peso: 61. No limite!

Nua, enxuta e enxuta, abre as 4 portas do closet. Escolhe 5 peças. Sóbrias!

Café: 3 colheres do pó preto. E mais: 4 gotas de adoçante, 5 comprimidos, 3 bolachas, 2 frutinhas. Todo início de dia é dia de dieta!

Folheia 36 páginas do jornal preferido e mais 48 do outro. Tudo ferve no papel!

Consulta a agenda dos próximos 7 dias. Será que a programação cabe nos horários? Que sufoco! Faz 4 ligações pelo telefone.

Confere 6 documentos na pasta. Acrescenta mais 2. Separa 3 contas a pagar.

Faz 2 rotações na porta do 701. Encontra 3 vizinhos no elevador. Descem os 7 andares.

Depois das 5 marchas, sua velocidade gira em torno de 70.

Cruza 41 quilômetros. Gasta 33 minutos no trânsito. Encara 22 semáforos, 15 verdes e 7 vermelhos.

Enfim, escritório! No caminho até sua sala, 8 bons-dias.

Cumpre a agenda matinal: reúne 5 pessoas, assina 5 cheques, firma 3 novos contratos.

Almoça com 3 clientes e 2 assessores. No shopping center ainda usa 2 vezes o cartão de plástico e de crédito. Gasta 243 reais.

À tarde, analisa 4 projetos, revê 6 planilhas de cálculo, redige 3 relatórios, manda 8 mensagens por e-mail. Entre as tarefas, 5 cafés. Sem açúcar, sem afeto, sem contar com os 4 copos de água bem gelada.

Até por isso, hoje é dia de dentista. Precisa completar o tratamento de 2 dentes. Dentes doentes. Paga 450 reais. Sem recibo.

Antes da volta pra casa, bate no bar de bater papo. Número 118. Lá encontra gente conhecida: 4 pessoas. E aí: 6 salgadinhos, 2 doses de whisky. Pronto! Protocolo cumprido! Protocolo?

Ainda no caminho de volta, há ingresso rápido no supermercado: compra 6 itens comestíveis que lhe faltavam em casa. Depois pára no caixa 24 horas porque precisa de 200 reais em espécie. Usa a senha de 4 dígitos. Saca. Saca e… casa!

Completa o tanque no posto do caminho. Gasta 46 reais.

Finalmente em casa quase às 22 horas. Que diazinho! Tão igual aos outros…

Vence 12 páginas do romance aberto. Dá sono. Do frio e da letra.

Assim ela leva a vida. E a vida, plena de números, leva tudo de arrasto. Quanta razão em Galileu Galilei! O livro do mundo está mesmo escrito em caracteres matemáticos!

Inevitável circularidade! O círculo não pára. Gira. Já viciou. E continua girando. É sempre recorrente: depois do stop virá certamente o retorno do start. E tudo se repetirá: mesmice, marasmo, monotonia, insipidez, apatia, sensaboria…

Ela dorme às 23 horas no quarto de 18 metros. Na cama, 2 lençóis, 3 travesseiros, 3 almofadas, 2 bichinhos de pelúcia.

Ela acorda às 7 horas e 10 minutos no quarto de 18 metros. Na cama, 2 lençóis, 3 travesseiros, 3 almofadas, 2 bichinhos de pelúcia. Só…

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Escritora

O conto “VIDA NOVES FORA ZERO” foi premiado em Concurso de 2005 do site de literatura Portal Literal.

O ano dos malucos

Não sei se foi o Gregório, aquele baixinho simpático que trabalha na Assembléia Paraense, “Passa Roleta” para os amigos, que inventou o tal Calendário Gregoriano, que transformou o grande Reveillon da passagem para o ano 2000 em mera ficção.

A passagem do milênio, do século, na verdade, se dará no final do ano 2000 e começo de 2001, uma odisséia no espaço, bem, sim err…

Pois o Gregório é tão bom, que dava conta da Branca de Neve sozinho, sem a ajuda dos outros seis anões. Viveram felizes para sempre no barraco perdido no meio da floresta.

Todos sabemos que floresta de história infantil tem animais que vivem sorrindo e o mais feroz e perigoso deles é o esquilo, imaginem.

Relva macia, chuva brilhante, sol primoroso, comida farta, frutas e mel dourado. E o Gregório na maior moleza. Até que um dia Branca de Neve acabou com o “sempre” e falou:

– Greg, você não quer casar comigo?

– Enlouqueceu, mulher? – revoltou-se Gregório. E você acha que eu vou casar com uma criatura chamada Branca de Neve? Você não tem nome e família…! Revoltado, arrumou a pequena mala e foi trabalhar na Assembléia Paraense, onde as moças têm nome e sobrenome.

Este o perfil de nosso personagem. Seria ele o autor de tal Calendário Gregoriano, que acabou com o encanto do Reveillon 2000? Seria uma forma de prejudicar o próprio reveillon da Assembléia, que reúne anualmente mais de 10.000 socialites?

Nada está comprovado.

Com ou sem encanto, todo mundo vai comemorar o final do ano 1999 como o reveillon do milênio. Estamos começando um ano complicado. O mundo todo prendeu a respiração e está assistindo com toda atenção a briga de Itamar Franco com FHC e respectiva equipe econômica.

Dependendo dos próximos lances, o mundo pode até não chegar no fim do ano, acabando antes. Não seria novidade para muita gente que acredita que o mundo acaba no ano 2000. O que ninguém jamais imaginou é que Itamar iria acender o pavio.

Será um ano de doidos. E se o planeta não for pelos ares na passagem do ano, os doidos estarão mais ativos em 2000. Profetas de todos os tipos estarão recebendo mensagens de entidades superiores. Incríveis profecias serão lançadas pelo “Fantástico”:

  • Chuvas fortes provocarão inundações
  • Chuvas fracas não provocarão inundações

As instituições religiosas estarão a mais de mil, a todo vapor, frenéticas.

Místicos farão advertências:

  • Arrependei-vos, pecadores. A Besta Quadrada está chegando!
  • Orai, decaídos: o fogo do inferno foi substituído pela música baiana.
  • O estádio do Maracanã desabará de tédio no próximo Fla x Flu.

Um ano louco também enlouquece a política: os russos, cheios de Yeltsin e seus desmandos e revoltados com a arrogância dos americanos, vão disparar um míssel intercontinental contra Nova York, levando Yeltsin na ogiva. Ao explodir, a grande cidade americana ficará coberta de vodka.

Em Belém, somente sobreviverão os ouvintes da Rádio Nazaré. Todos os outros serão varridos do mapa pela Grande Saúva da Ordem da Carla Perez, enviada à Terra pelo líder da Seita dos Adoradores do Macarrão Japonês.

Enéas voltará triunfante. Aí já é demais. Alguém pode falar com o Gregório? Bem que ele podia alterar o calendário e adiar a mudança do milênio para daqui a uns 50 anos. Estaríamos, quase todos, confortavelmente mortos.

Euclides “Chembra” Bandeira
Jornalista

Publicado originalmente em 10/01/1999
Caderno Negócios
Jornal Diário do Pará

O dia em que não consegui fazer uma homenagem a Belém

Escolhi a tarde para começar a pensar num texto, que nunca escrevi, para minha cidade, Belém.

Depois de arrematar o almoço com uma cuia de açaí, caminhei a passos largos para o escritório a fim de evitar a chuva da tarde, que não marca mais hora.

Subir a ladeira da Doca com, pelo menos, meio litro de açaí no “bucho” , como dizem os repórteres policiais, é tarefa nada fácil.

Obviamente exausto, paro na porta, à sombra da velha mangueira, acendo um cigarro e espero aquele tempinho ideal para refrescar a pele e enfrentar o ar-condicionado sem muitos problemas.

Ligo o computador, aquela rapidez que todos eles têm ao serem ligados fazem-nos pensar até que ponto seriam eles paraenses.

Blagues a parte parto para a tela em branco. A gramática vem na cabeça. A idéia não.

Penso no que não foi dito da cidade das mangueiras. Vou até a janela a procura de inspiração. Do outro lado da rua, debaixo de um sol de rachar aprecio D. Adelaide, a tacacazeira da esquina monta sua banca.

Hum, tacacá… Será que rola? A vontade de tomar um não traz nenhum benefício para as idéias. Preciso homenagear Belém.

Mil coisas na cabeça e nenhuma na tela do monitor. As horas passam. Alguém me cobra o texto. Digo que está tudo bem. Tudo bem uma pinóia.

Chego a conclusão que sei viver Belém e não escrever sobre Belém. Isso fica lá pro Sobral, pro Valente, pro Laredo, pro João Carlos, pro Denis… Essa gente que só pensa naquilo: escrever.

E eu? Eu sei andar por aí. Sei me livrar do calor, sei tomar o tacacá da D. Adelaide, descer a Pres. Vargas depois de pegar a São Jerônimo (ah, mudaram o nome da rua?), reclamar dos ambulantes, da igreja que tomou conta do Cine Palácio. O vento que varre a avenida vem da baía com aquele cheirinho de pitiú de peixe. A “maré tá enchendo”, fala alguém.

Não dou um passo imune à admiração que tenho pela maioria dos prédios. Alguns nem tanto. Vou olhar a maré subir, de perto, no Estação. Uma boa desculpa pra uma cerpinha, duas, três… e o tacacá? Ah, o tacacá cura a ressaca, passa o porre, levanta.

Passa um, dois, três, sete… sei lá quantos barcos, pra cima e pra baixo. Tá na hora de ir. Putz, o texto sobre Belém…

Ai, minha Nossa Senhora de Nazaré, dai-me inspiração.

A chuva cai, sem dó nem piedade, bem na subida da Presidente Vargas, de volta ao escritório, à tela em branco. A chuva que cai no meu rosto lembra que naquele pedaço de cidade eu sempre me emociono no Círio, desde que era criança, quando a Santa e a corda sobem a ladeira e as lágrimas descem pelo rosto, como a chuva agora, até mais: encharco minha roupa.

Uma manga tira o fino da minha moleira e se oferece no chão.

O amarelo no lióz: que beleza de manga.

Mais duas ou três na Avenida Nazaré. Não agüento mais manga, afinal tenho que guardar um lugarzinho na barriga pro tacacá.

O quê, pensa que esqueci? E com manga não faz mal? Ah, se faz vai-me fazer.

Palito os dentes de uma boca meio anestesiada pelo jambú e atravesso a rua pra cumprir a minha missão.

O quê? Encerrou o expediente? Mas, assim…

Espero o Sacramenta/Nazaré, suado, molhado, um soninho gostoso.

Eu juro, por Nossa Senhora: ano que vem escrevo sobre Belém.

Égua, lá vem o sacrabala…

Bina Jares

Jornalista e publicitário

Publicado originalmente em 12/01/2004

Anúncio em homenagem ao aniversário de Belém

Agência de propaganda Double M