Arquivo do mês: março 2006

Duas

Eu sou duas…

Eu sou duas.
Uma sou eu. Sou eu. Só eu.
Eu. Essência. Seiva. Eu em mim. Nua e crua.
Esta!

A outra é plural.
Tem vestes, adornos, lanças, circunstâncias…
É muitos. É todos: eu, vocês, eles, nós, todos…
É o sistema que também tem eu – e eu, aqui, de novo!

Eu sou duas.
Diferentes. Divergentes. E brigam…
Eu sou duas. Desafinadas. Por quê?
Linhas morais. Em desalinho.

Eu sou duas.

No inevitável embate, as duas perdem.
Nenhuma ganha. Nenhuma vence. Nenhuma convence.
Mas tudo se desmorona. Escombros. Escuridade.
Não sobra nada. Agora, nenhuma das duas. Fim. Fim.

Eu era duas…

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Escritora

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Os bichos da lua

O nome foi escolha do pai, fã de uma antiga cantora da Rádio Marajoara, Carmem Silvia, espécie de cover (na época, como se dizia, imitava) de outra, também cantora do passado e atriz de cinema, a argentina Libertad Lamarque. Trabalha comigo há já vinte anos, desde que meu primeiro casamento se desfez. Carmem chegou uma adolescente casada com um bebê no colo (hoje, têm dois marmanjos já candidatos ao próximo vestibular). Cozinheira de bom paladar para o trivial (picadinho, arroz feijão e farofa) das refeições congeladas que ajeito no meu regresso noturno tem boa mão, como se diz, para cuidar das plantas que faz questão de prover e arrumar no diminuto espaço apelidado de varanda pela construtora. Com muita cautela, expõe a sua opinião sobre minhas parceiras, e até chega (humildemente) a me aconselhar sobre meus relacionamentos. Com uma não se deu bem pois essa quis invadir, de forma desastrada, o espaço da sua administração. Reivindicou isso, lembro que lhe dei total razão e a parceira me deixou.

Vemos-nos pouco, mora a seis quarteirões do meu prédio e administra suas idas e vindas para cumprir as tarefas domésticas necessárias em meu pequeno apartamento. Chega cedo para fazer o café da manhã que há muito elegi a minha principal refeição, se lembro, desde o tempo em que morei num hotel, em Natal. Assim, nos falamos mais na hora do café matinal, ocasião em que escolhe, também, para passar minhas roupas ou cuidar das plantas na, digamos, varanda. Uma vez matou à vassouradas um morcego que havia adentrado a janela da sala. Fiz um comentário no dia seguinte de manhã quando me mostrou o falecido quiróptero:

– Estás com uma boa pontaria. Após despejá-lo na lixeira, voltou-se para mim e disse:

– Ele tinha a cara do diabo!

Perguntei sobre o porquê da comparação e se ela já havia visto o diabo, o que respondeu de pronto:

– Vi sim, uma vez na televisão… É igualzinho.

Hoje, também no café, eu lhe disse que ouvira o ministro da Saúde declarar não ser possível deter a entrada do vírus da gripe aviária no Brasil. Ela perguntou como é que aparecem “essas coisas”. Falei das aves migrantes contaminadas e disse acreditar numa espécie de revanche da natureza e meio ambiente, em função de crueldades recorrentes no universo como as guerras, além de maldades cometidas e ódios que os homens acumulam. Parada, só escutou e se foi para a cozinha. Voltou em seguida, e disse com firmeza:

– Não sei… O senhor assistiu na televisão sobre as viagens desses astronautas?

Após meu gesto com a mão, do tipo mais ou menos, complementou:

– Pois é. Vão pra esses lugares e vai ver trazem junto os bichos que existem na lua e por onde mais eles andaram. Daí passa tudo pra nós!

Isso que é sangue bom! Grande Silvia! Melhor explicação eu não encontraria…

Jaime Bibas
Arquiteto