Arquivo do mês: abril 2006

Palavra

Na cama, a falta de prumo,
o toque primeiro,
o clima em rimas,
os silêncios – interlúdios de gorjeios.
No chão, sem tez, nem vez,
fios e botoeiras…
Em pêlo, o gosto do gozo
a se repisar, a se superar.
Facetas? Sublimes! Mas facetas…
Facetas. Preciosas! Facetas.
E como esquecer a chispa?
A palavra, a palavra, a palavra…

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Escritora

Auto Retrato

Se me quebram os dedos
Uso luvas
Se me cortam a mão direita
Uso a esquerda
Se me proíbem o sorriso
Choro
Se a mordaça incomoda
Escrevo

Jaime Bibas
Arquiteto

Marajó Caboclo

Marajó, cenário da minha infância
poetizando um passado,
ficou em mim a fragância
do mato verde pisado.

Marajó do mururé,
da canarana verdinha,
nas margens do igarapé
sou garça triste, branquinha.

Marajó do quiriru,
dos tuins em revoada,
do canto do uirapuru
ao despontar da alvorada.

Marajó das invernadas,
das marombas, do atoleiro
das baetas encarnadas
o agasalho do vaqueiro.

Marajó do juquiri,
que nasce da terroada,
do tristonho tapiri
dentro da brenha cerrada.

Marajó do tucuxi,
do boto namorador,
da pesca no cacuri,
das fazendas, do feitor.

Marajó da vaqueirada,
da carne de sol, do surrão
dos rebanhos, das manadas,
das riquezas do patrão.

Marajó da farinhada,
da mandioca em paneiro
do caçador de espingarda
atrás do boi marrequeiro.

Marajó do açaí,
em cuia pitinga pintada,
do fumo do taquari,
da sucuri encantada.

Marajó das ladainhas,
do folião violeiro,
das chulas, toadas, modinhas,
do urutau agoureiro.

Marajó do boiadeiro
que doma o cavalo no espaço,
parece ter dom feiticeiro
no firme jogo do laço.

Marajó das caiçaras,
dos embarques, das marés,
dos cerrados, das coivaras,
da pesca dos jacarés.

Marajó da jiribana
que amarra o boi ao mourão,
da pinga no caldo de cana,
dos rodeios, do ferrão.

Marajó do mutirão
da “fechação da boiada”
da “ferra”, “assinalação”,
do grito da vaqueirada.

Marajó da muriçoca,
das fogueiras no terreiro,
do beiju de tapioca
merenda do fazendeiro.

Marajó do “curuné”
que domina a região,
tem mais poder que o pajé,
na Casa-Grande é patrão.

Marajó índio guerreiro
que em mim causa mormaço
e eu filha de fazendeiro
te amo, te beijo, te abraço.

Sylvia Helena Tocantins
Escritora e membro da Academia Paraense de Letras

A poesia “MARAJÓ CABOCLO” recebeu a Menção Honrosa no V Concurso Nacional de Poesias e Crônicas, em São Paulo, no ano de 1988.