Arquivo do mês: maio 2006

Ainda voltaremos a almoçar em casa

Naquela multidão de ambulantes e fregueses, ali do centro de Belém, se for bem reparado, há uma hora em que o ritmo cai, o pulso diminui, os ombros pesam. Quem passa por volta de 1, 2 da tarde, nota os olhos semi-cerrados, cansados. Acabou o almoço apressado, jogado de qualquer maneira numa quentinha. Depois, o calor começa a cobrar descanso obrigatório, hoje sepultado pelo mundo moderno. Há um grito desesperado que ninguém se atreve a liberar:

– Uma sesta, pelo amor de Deus!

Nos velhos tempos, em Belém, todo mundo voltava para casa, na hora do almoço. O chefe da família, os filhos estudantes, parentes e aderentes. E depois do almoço, por uns 10, 15 minutos, havia a sesta, um banho, o lavar de rosto para os mais apressados e a volta ao trabalho.

Um atraso qualquer poderia causar complicações: a chuva das duas da tarde vinha sempre, forte ou fraca, mas vinha. E no verão, nem pedia licença ao sol: os pingos eram claros, brilhantes à luz do astro-rei, que, tenho a impressão, ficava muito mal humorado com a intromissão da chuva atrevida, que caía sem pedir licença e justamente quando o sol, ele também, tirava a sua sesta no céu de Belém. Sol e chuva ao mesmo tempo, um desatino, mas que anunciava, para uns, o casamento da raposa. Para outros, o matrimônio era mesmo da mucura. Mucura ou raposa, o jeito era esperar à porta a chuva passar, envolvido por aquele cheiro de terra quente molhada. Asfalto? Nem pensar.

Os americanos, através de seus filmes, sempre escolheram a dedo os seus vilões: alemães da Primeira e Segunda Guerras, índios avermelhados e sanguinários, mexicanos assassinos e negros traiçoeiros, dentre outros. Aqui e ali, quando a história não comportava mexicanos assassinos, eles eram apresentados como inúteis, preguiçosos, sempre dormindo após o almoço, encobertos por enormes sombreros. Era a siesta, para horror dos americanos que não paravam de trabalhar e, tropeçando aqui e ali no mexicano encoberto pelo sombrero, exclamavam cheio de desprezo: Oh, my God!

Defensor da sesta, sempre paguei muito caro por isso, ouvi desaforos dos imitadores dos americanos, cujo ritmo de trabalho faz bem ao bolso, mas é fatal ao estômago, cabeça, tronco e membros. E de repente, há alguns meses, vejo na TV uma matéria sobre a necessidade da sesta, descoberta por grandes empresas americanas. Não como concessão trabalhista, mas porque descobriram que o empregado que tira a sesta após o almoço, rende muito mais.

E agora, como ficamos? Se imitamos os gringos do norte em tudo, o que dizer da velha e boa sesta? Se o costume do "tempo é dinheiro" que importamos acabou com o almoço em família, o banho, o lavar de rosto e volta ao trabalho, agora que os americanos mudaram de opinião, por que não imitá-los como sempre foi feito?

Quem sabe um dia não voltaremos a almoçar em casa? Se eu fosse presidente, baixava medida provisória instituindo transporte coletivo grátis para a brava gente que se comprometesse a almoçar em casa e dormir pelo menos uns vinte minutos de sesta.

O tempo não volta, é verdade. Mas as coisas aqui em Belém são meio mágicas. Por que chovia sempre às 2 da tarde? Jamais soubemos. E se, com todo mundo almoçando em casa, tirando a sesta, quem sabe a chuva das 2 da tarde não voltaria a cair?

O sol que me perdoe, mas seria uma dádiva.

Euclides “Chembra” Bandeira
Jornalista

Publicado originalmente em 23/01/2000
Site belemdopara.com.br

Perdoe, padre. Eu pequei!

Escrever cada uma dessas crônicas é um “flash”. Um “flashback”.

Bem que eu tento não encher muito o saco com essa coisa de escrever sobre as coisas do passado, como se o passado fosse melhor que o presente, porque a coisa não é muito por aí não. Pelo menos pra mim não é. O que passou e foi bom, a gente guarda num lugar especial e pronto, toca a vida pra frente.

Acontece é que, as vezes, eu tô naquele branco geral sobre o tema da crônica da semana e aí, de repente, a coisa acontece na minha frente e a tecla <<REW do meu cérebro é acionada imediatamente. Pronto: a crônica da semana vai aparecendo na hora, em “technicolor”, não importando onde eu esteja.

Ontem, por exemplo, a coisa rolou na santa missa de toda semana, bem na hora da comunhão. Estava lá eu, compenetrado nas minhas orações, quando olhei para o lado – nota-se que a compenetração nem era tanto assim – e voltei pelo menos 22 anos no tempo.

Em pé, na fila para receber o Corpo de Cristo, um cara, da minha idade, estava lá vestindo camisa Hang-Ten e calçando tênis All Star.

Putz, esse era o uniforme básico dos garotos e garotas do final dos anos 70, funcionando para o cinema, a lanchonete, aulas de inglês e até para os imperdíveis embalos de sábado a noite daqueles tempos. Juro que vi gente vestido assim em vários quinzolas chics.

Quem não estivesse usando camisa Hang-Ten e tênis All Star, legítimos diga-se de passagem, não era bacana.

Camisa Hang-Ten legítima, americana “of course”, era a verdadeira T-shirt, pois não tinha costuras nas laterais. Eu que não entendo patavinas do ofício, me pergunto até hoje como é possível se fazer uma camiseta de malha sem costura nas laterais.

Pra quem não está ligando o nome à pessoa, essas camisetas eram umas que traziam dois pézinhos bordados na altura do peito e listas horizontais coloridas, ou com grafismos, na estampa da malha.

Já os tênis All Star, para mim continuam sendo os mais bacanas já fabricados. Mas claro, o All Star fabricado pela Converse e não esses clones, só aparentemente univitelinos, que enfeitam as vitrines das lojas do nosso comércio até hoje, fabricados no Brasil e no Paraguai, sob a licença, ou não, da empresa americana.

E quanto mais berrante a cor do tênis, mais sucesso fazia. Eu mesmo tive um, de cano longo, alaranjado. Isso, lógico, antes de ter um cano baixo, roxo caixão, que era tudo de bom.

A diferença entre os legítimos e seus clones, só os iniciados percebem. Uma das dicas é você observar o desgaste do sapato. No original, com o uso, a lona vai ficando cada vez mais macia e a sola vai desfiando, como se fosse um pneu velho.

Outra característica incomparável é o chulé. É verdade, acredite: o chulé de um legítimo All Star é inesquecível: muito mais encorpado, como nos melhores vinhos. No All Star de verdade, o chulé não tem nada a ver com o seu dono. O cheiro faz parte do DNA do sapato e é imutável de um dono para o outro. O cheiro de um All Star era tão marcante que, quando eu tirava meu sapato no andar de baixo da casa, minha mão gritava lá de cima: “chegou, filhão?”

Lembro também do caso de uma amigo que foi fazer a sua estréia nos, digamos assim, prazeres da carne. Como, na época, ele era “di menó”, vamos tratá-lo apenas pelas iniciais.

Pois bem, M.A., esse meu amigo, decidiu que nada seria mais justo para a sua noite de estréia, do que estrear um belo par de pisantes All Star e uma T-Shirt Hang Ten.

M.A., portanto vestiu-se impecavelmente segundo os padrões do mundo fashion setentão e se mandou para a Portuguêsa, um famoso lupanar de então.

Eis que, chegando lá, uma idéia que não queria calar na cabeça do M.A. foi ganhando mais e mais força. Medo de brochar? Que nada: medo de ficar sem o tênis e a camiseta, pois, na hora H, quando estivesse lá concentrado no serviço, alguém poderia entrar no quarto de mansinho e, sem que ele percebesse, roubar todo o seu patrimônio.

Imagino a cara da madame, que deve estar se perguntando até hoje, porque aquele estreante lourinho fez o serviço pelado, mas nem tanto: nos pés, com laço duplo para dificultar qualquer assalto, um reluzente par de tênis All Star vermelho. Em uma das mãos, toda embolada, a novíssima camiseta Hang Ten.

Essa invasão na privacidade do meu amigo M.A. se fez necessária para que, os que não viveram essa época gloriosa, possam entender o culto a esses dois ícones de uma juventude alegre, que vivia sem medos da AIDS, de assalto e sem o cerco das drogas, que existiam, claro, mas era uma coisa muito distante da gente.

Talvez, até por não ter tanto com o que se preocupar, a gente perdesse tanto tempo se preocupando com tanta bobagem, como ter uma camiseta Hang-Ten e um tênis All Star.

E acabou que, naquele “flash” da missa, acabei cometendo mais um pecado, entre tantos outros da minha listinha: morri de inveja daquele cara com sua camiseta listrada e tênis cor de uva.

Mas olha só, Papai do Céu: eu juro que a história do meu amigo no puteiro eu só lembrei depois, viu?

Cesar Paes Barreto
Publicitário

Publicado originalmente em 10/06/2002
Site belemdopara.com.br