Arquivo do mês: setembro 2006

Meu bairro

Cidade Velha, meu bairro,
régio berço de Belém,
do Ver-o-Peso bizarro
pesando o que o bairro tem.
Cada azulejo matiza
uma dor, uma saudade,
o passado se eterniza
no bairro da minha cidade.
Com carinho maternal
meu bairro a maré balança
os becos, o Porto do Sal,
dia e noite e jamais cansa.
Meu velho bairro agasalha
mistérios, preciosidades,
como se fosse mortalha
de nobres antiguidades.
Sobrados coloniais
retratam o apogeu, a glória,
as paredes colossais
guardam os segredos da história.
Nas igrejas centenárias,
no Largo do Carmo, da Sé,
há devoções milenárias
que o povo cultiva com fé.
Quando triste o sino plange
na torre da Catedral,
meu coração se confrange
numa saudade imortal.
Todo um passado acorda
na voz do sino da Sé
e minha alma recorda
um bonde chamado Bagé.
Esse bondinho brinquedo
da criançada vadia,
pode hoje ser enredo
da mais linda poesia.
Cidade Velha, velhinha,
aos pés de Nossa Senhora,
hoje reza ladainha
e a Santa Maria implora.
Meu bairro é cartão-postal,
desconheço outro mais belo
do Brasil colonial,
Tem ladeira do Castelo.
Meu bairro é a esperança
da minha verde cidade
e o Ver-o-Peso é a balança
que pesa a minha saudade.

Sylvia Helena Tocantins
Escritora e membro da Academia Paraense de Letras

A poesia “Meu bairro” conquistou o Concurso Funtelpa em 1987.

Andança

Carrego meus males todos
juntos no mesmo bolso,
juntos do mesmo lado – no peito esquerdo.

Sigo assim meio de lado
puxando de uma perna
e arrastando meu corpo torto
pela rua muda.

Abilio Pacheco
Professor, escritor e mestre em Letras

Uns e outros haicais

Haicai

Está nos dicionários: S. m. Arte Poét.

1. Poema japonês constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo.

Os haicais, segundo Afrânio Peixoto em “Miçangas”: “resumem uma impressão, um conceito, um drama”. Paulo Leminski foi um dos principais criadores de haicais na língua portuguesa, também, muito difundiu essa técnica poética. Dizia que o haicai representa “informação, ponto de partida e muitas vezes de chegada (roupas no varal/ deus seja louvado/ entre as roupas lavadas), tudo a serviço do impulso criativo do poeta”.


1
Noite de calor,
a brisa foi pra longe
dessa janela.

2
Sem o passado,
vivo a fotografar
filmes velados.

3
Tez muito branca,
doce ar de arcanjo.
Nome? Bianca.

4
Passei no crivo?
Que bom! Serei poeta
posto em livro.

Jaime Bibas
Arquiteto

Gente

“A solidão é o destino de todos os espíritos eminentes”.
(Schopenhauer)

Eu e a cama. Eu e o despertador… que me molesta. Eu e o sol… que me corteja. Eu e a água. Eu e a colônia. Eu e a roupa. Eu e os botões… que me prendem. Eu e os sapatos. Eu e os óculos. Eu e os jornais. Eu e os livros. Eu e a bolsa. Eu e o café. Eu e o pão. Eu e as frutas. Eu e o carro. Eu e o dinheiro. Eu e o bife. Eu e as batatas. Eu e o elevador. Eu e o celular. Eu e o computador. Eu e a internet. Eu e os papéis. Eu e a pena. Eu e os comprimidos. Eu e o whisky. Eu e a música. Eu e a televisão. Eu e a coberta… que me agasalha. Eu e a lua… nua.

Eu e as horas mortas.

Puxa! Quanta, quanta gente essa gente!

Que sufoco!

Gente grudenta!

Tanta gente!

Tanta gente assim me cansa!

Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães
Escritora