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Jaime Bibas

Jogo do bicho chinês

Não curto essas coisas dos jogos de sorte, prognósticos astrológicos, nem hexagramas do I-Ching. Certa vez ganhei meia dúzia de copos para vinho num sorteio beneficente e tive que devolvê-los, porque houve um equívoco na leitura do número vencedor. O nove foi lido como o seis da minha cartela. Antes que algum leitor mais apressado conclua, digo: não sou, também, azarento. Precavido, prefiro. Não sei lidar com assuntos que não domino ou controlo precariamente, raramente gosto de arriscar.

Curioso com um e-mail que recebi, no qual um amigo dizia ser galo no horóscopo chinês, consultei na internet que bicho eu seria. Descobri, sou cão. Cachorro? Que coisa! Logo eu que tenho uma quizila antiga com eles, fiquei surpreso ao constatar que, lá, a personalidade do cão é bem parecida com meu julgamento sobre a minha pessoa. Homessa! Cachorro? Faz tempo fui mordido por um (aliás, era uma cadela), padeci com a aplicação daquelas injeções horrorosas. Se soubesse, naquela altura, que era um cão – ‘ela’ também, claro – um latido meu talvez evitasse a consumação do ato e quem sabe após, o desentendimento, até poderia rolar um clima entre nós…

Também descobri, além dos pontos convergentes da personalidade, meu dia de sorte: a sexta-feira. Caramba! É amanhã! Logo numa quinta, perto da zero hora, que estou em casa aguardando o horário de buscar minha filha num aniversário, faço essas descobertas: sou um cachorro e minha fortuna semanal começa daqui a pouco. Animado com a possibilidade, tratei de pesquisar como faturar um plus para pagar contas em atraso. Escolhi o Jogo do Bicho, ao avançar na leitura, outras curiosidades: cachorro é número 5, sexta-feira o quinto dia da semana, e mais, amanhã é dia vinte e a dezena do cachorro vai de 17 a 20. Pronto! Consultei o numerário disponível, sessenta reais na carteira que multiplicariam cinqüenta vezes com aquela dezena cravada ‘na cabeça’. E se não der? Afastei o pensamento negativo, resolvi arriscar.

Ansioso, no café da manhã, passei para D. Carmem Silvia, minha fiel secretária de tantos anos, a incumbência de fazer o tal jogo. Com cara de espanto ela perguntou:

– Onde o senhor aprendeu isso?
– Na internet Silvia, por quê? O jogo não está certo?
– Certo está, o negócio é esse palpite…

Não contei conversa, em eloqüente discurso, disse que ela entendia de jogo do bicho e eu de possibilidades matemáticas (ocultadas para não espantar a sorte). Após a catilinária, cabisbaixa, saiu para fazer o jogo.

Esperei sua ligação no início da tarde. Calculei as dívidas, tudo estava perfeito! Ainda sobraria algum para os chopinhos. Às quinze horas atendi ao telefone que tocava. Silvia foi logo dizendo:

– Deu 13, galo, na cabeça…
– Como Silvia? Esse é o bicho do Lauro (**)!

Após rápido silêncio complementou:

– Não sei quem é esse ‘seu Lauro’. Sexta-feira passada dia 13 era dia do azar, então a sorte do galo passou para esta sexta, 20. Eu bem que quis falar…

PQP! Vá entender de Jogo do Bicho assim lá na China!

Nota: (**) Lauro é aquele amigo que disse, num e-mail, ser galo no Horóscopo Chinês.

Jaime Bibas
Arquiteto

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Uns e outros haicais

Haicai

Está nos dicionários: S. m. Arte Poét.

1. Poema japonês constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo.

Os haicais, segundo Afrânio Peixoto em “Miçangas”: “resumem uma impressão, um conceito, um drama”. Paulo Leminski foi um dos principais criadores de haicais na língua portuguesa, também, muito difundiu essa técnica poética. Dizia que o haicai representa “informação, ponto de partida e muitas vezes de chegada (roupas no varal/ deus seja louvado/ entre as roupas lavadas), tudo a serviço do impulso criativo do poeta”.


1
Noite de calor,
a brisa foi pra longe
dessa janela.

2
Sem o passado,
vivo a fotografar
filmes velados.

3
Tez muito branca,
doce ar de arcanjo.
Nome? Bianca.

4
Passei no crivo?
Que bom! Serei poeta
posto em livro.

Jaime Bibas
Arquiteto

O que fazer com e-mails chatos?

Maravilha! Você comprou aquele pentium quatro, hagá-dê com 80 gigarrertizes, 512 megabaites de ram, instalou banda larga e aí, embora não saiba muito bem o que isso venha a significar, crê no vendedor que lhe disse estar você apto a “navegar” na rede mundial de computadores, ler notícias fresquinhas, alguns comentaristas muito mais fresquinhos, visitar fóruns de intermináveis discussões, ver (sozinho) boazudas praticando indecências (acho linda esta palavra, in – de – cên – cia) e outras cositas mais, as quais, quando adolescente só podia ver nos “catecismos” do Zéfiro e trancado no banheiro. Isso é bom? O julgamento vai ser seu. Internet é coisa moderninha, apitudeite, com daunloudes, apiloudes, apigreides e outros apis menos votados. Nela as pessoas sentem-se comandantes de placas, portas, draivis, botões, teclas, atalhos, ratos eletrônicos e o escambau de asas. Você vai reinar absoluto, sentado numa poltrona confortável, diante de uma telinha com mais ou menos 40 centímetros, na diagonal. Pois é, esse negócio de 17 polegadas (ou 42,5 centímetros), digo, é papo furado. Então comprove: pegue uma régua, tire a medida – na diagonal – da tela do seu monitor, certamente vai ter uma surpresa. Seria então a primeira empulhação da rede? Talvez, mas existem outras… Prepare-se para decolar!

Logo vão estar na sua frente, centenas de pseudônimos. A maioria se conhece na internet através de nomes falsos (isso vale, também para o sexo de nascença). Vai ser bombardeado por perguntas idiotas como: Você está aí? Está on-laine? Ofi-laine? Posso entrar? Posso add? Com essas indagações, vão lhe visitar os amantes dos emesseenes e orcutes da vida, cuíras para lhe enviar mantras tailandeses, corações que explodem na tela e caretas que se movimentam. Será, rapidamente, amigo de 149 pessoas que lhe “adicionaram”, algumas delas você nem lembra onde ou se já viu mais gorda. Outras, nem pela fotografia vai reconhecer, pois são gatos, cachorros, santos, velhos artistas da televisão, cinema ou saidos das histórias em quadrinhos. Isto se der sorte e não topar com exibicionistas a postar fotos de suas genitálias, as quais, provavelmente, apenas servem para aquela finalidade virtual. E os e-mails de chatos ou os chatos de e-mails? Pois é, cedo ou tarde vai conhecê-los, esses são foda!

Não tem jeito, vai sempre receber aqueles e-mails com manifestos políticos. Vão tentar convencê-lo que os hezzbolah são grupos de imaculados cidadãos, que o Fidel Castro e o Hugo Chávez são uns monstros em peles de cordeiros, que o “aquecimento global” é um iminente perigo ao universo e em outros, vai encontrar verdadeiros tratados sobre uma “Nova estratégia imperialista dos EUA que nos ameaça”. Por causa da aparente seriedade, são enviados para centenas de destinatários, de uma só vez e esses, sem ao menos ler, encaminham de novo acompanhados por comentários presunçosos como: “interessante…” ou “achei importante” e, por vezes: “leitura imperdivel”. Assim, os protestos contra Israel, Bush, Blair e companhia limitada vão ficar, a cada dia, maiores nos seus arquivos. E haja tempo para conseguir livrar-se de tudo!

Também existem aqueles pretensamente engraçados, que só são piadas para o remetente (uns com fotografias ou ilustrações atachadas). Nesses, os chatos não se conformam em mandar apenas uma, são três, quatro, cinco, num português deplorável e para ficar mais chato, chegam como anexo de anexos re-enviado. São do tipo que você vai clicar duas ou três vezes num envelopinho até abrir. Não entendo o porquê: nesses, existe uma preferência em humilhar as mulheres. Um saco! Prepare-se para ver em alguns, um quadradinho com um xis vermelho no centro, e por mais que se esforce, não vai conseguir transformar aquilo em algo inteligível. Não pense em decifrá-los, melhor é apagar logo a chatice e relaxar.

Alguns chatos vão descobrir seu e-mail e mandar convites. A maioria para espetáculos no Rio e São Paulo, festivais de cachaça em Minas, de chocolate em Gramado ou degustações de vinhos e carnes na Argentina. E não pense que mandam junto a passagem.

E antigos amigos? Lhe descobrem sabe-se lá de que maneira e é, quase sempre, um porre. Você nem lembra dos nomes, são velhos colegas com recordações da juventude, das turmas que você nunca freqüentou, do futebol que nunca jogou, de filmes que nunca viu. São perigosos quando lhe encontram… Rápido pulam do papo virtual ao convite, num domingo à tarde, para curtirem umas “geladas” (que sempre estão quentes) e uma roda de “samba de verdade” (existe samba de mentira?) no Pompílio. Livre-se deles.

Para mim, considero essas, as principais malas eletrônicas. São só exemplos e nem servem, claro, a todos os internautas que se cruzam por aí nessa imensa quanto maravilhosa balbúrdia que é a internet. No entanto sei de alguns os quais, muito provavelmente, após lerem o que escrevi vão me enquadrar em alguma categoria virtual de chato.

Jaime Bibas
Arquiteto

Auto Retrato

Se me quebram os dedos
Uso luvas
Se me cortam a mão direita
Uso a esquerda
Se me proíbem o sorriso
Choro
Se a mordaça incomoda
Escrevo

Jaime Bibas
Arquiteto

Os bichos da lua

O nome foi escolha do pai, fã de uma antiga cantora da Rádio Marajoara, Carmem Silvia, espécie de cover (na época, como se dizia, imitava) de outra, também cantora do passado e atriz de cinema, a argentina Libertad Lamarque. Trabalha comigo há já vinte anos, desde que meu primeiro casamento se desfez. Carmem chegou uma adolescente casada com um bebê no colo (hoje, têm dois marmanjos já candidatos ao próximo vestibular). Cozinheira de bom paladar para o trivial (picadinho, arroz feijão e farofa) das refeições congeladas que ajeito no meu regresso noturno tem boa mão, como se diz, para cuidar das plantas que faz questão de prover e arrumar no diminuto espaço apelidado de varanda pela construtora. Com muita cautela, expõe a sua opinião sobre minhas parceiras, e até chega (humildemente) a me aconselhar sobre meus relacionamentos. Com uma não se deu bem pois essa quis invadir, de forma desastrada, o espaço da sua administração. Reivindicou isso, lembro que lhe dei total razão e a parceira me deixou.

Vemos-nos pouco, mora a seis quarteirões do meu prédio e administra suas idas e vindas para cumprir as tarefas domésticas necessárias em meu pequeno apartamento. Chega cedo para fazer o café da manhã que há muito elegi a minha principal refeição, se lembro, desde o tempo em que morei num hotel, em Natal. Assim, nos falamos mais na hora do café matinal, ocasião em que escolhe, também, para passar minhas roupas ou cuidar das plantas na, digamos, varanda. Uma vez matou à vassouradas um morcego que havia adentrado a janela da sala. Fiz um comentário no dia seguinte de manhã quando me mostrou o falecido quiróptero:

– Estás com uma boa pontaria. Após despejá-lo na lixeira, voltou-se para mim e disse:

– Ele tinha a cara do diabo!

Perguntei sobre o porquê da comparação e se ela já havia visto o diabo, o que respondeu de pronto:

– Vi sim, uma vez na televisão… É igualzinho.

Hoje, também no café, eu lhe disse que ouvira o ministro da Saúde declarar não ser possível deter a entrada do vírus da gripe aviária no Brasil. Ela perguntou como é que aparecem “essas coisas”. Falei das aves migrantes contaminadas e disse acreditar numa espécie de revanche da natureza e meio ambiente, em função de crueldades recorrentes no universo como as guerras, além de maldades cometidas e ódios que os homens acumulam. Parada, só escutou e se foi para a cozinha. Voltou em seguida, e disse com firmeza:

– Não sei… O senhor assistiu na televisão sobre as viagens desses astronautas?

Após meu gesto com a mão, do tipo mais ou menos, complementou:

– Pois é. Vão pra esses lugares e vai ver trazem junto os bichos que existem na lua e por onde mais eles andaram. Daí passa tudo pra nós!

Isso que é sangue bom! Grande Silvia! Melhor explicação eu não encontraria…

Jaime Bibas
Arquiteto